A NATUREZA NO VALE

Arno Kayser

Agrônomo e ecologista

 

   Suas várias fontes e veredas constróem um veio dágua que, ao longo dos últimos 65 a 110 milhões de anos, têm modelado a paisagem do Frankental. 

 

   O Vale  dos Franken tem sua origem nos grandes derrames basálticos que se lançaram sobre o primitivo deserto de Botucatu. Este último, maior que o moderno Saara, se estendia desde o sul do Brasil até a metade do nosso continente, cujo efeito de continentalidade explicava o clima árido de então. Com o rompimento dos dois grandes continentes e o surgimento do jovem Oceano Atlântico, foi paulatinamente se modificando.

 

   As mesmas forças geológicas que separavam os continentes fizeram brotar lava quente do fundo da terra, que se espalhou, feito creme de leite, no sentido leste-oeste, cobrindo as areias do deserto. Fenômeno este, o maior da história de todas as manifestações vulcânicas do planeta, que redundou em camadas imensas de pedra basáltica com até mil metros de espessura.

 

   Em seu embasamento, as primitivas dunas se converteram em duro arenito, pedra boa para a mó dos moinhos e o alicerce das casas que os primeiros alemães usaram quando da colonização do sul, no império de Pedro I.

 

   Naquele momento o primitivo índio foi sendo afastado ou miscigenado e a paisagem iniciou sua última grande modificação. Mas, uns dez mil anos antes, ao fim da última glaciação, o clima esquentou, viabilizando a chegada das grandes florestas tropicais do sul.

 

   Uma, vinda da borda do Atlântico, entrou no sul pela Porta de Torres e veio invadindo as encostas da grande serra. Melastomatáceas e Cecropias são algumas de suas principais contribuições para compor a floresta semitropical semicaduca ( algumas de suas árvores perdem folhas no inverno, outras não ) que domina o local.

  Já do nordeste, através dos grandes rios cisplatinos, chegou a mata do interior do continente, trazendo o cedro, a canjerana e o louro. Originária da grande floresta amazônica, esta vegetação  veio se mesclar com a de origem atlântica. Ambas dominam o extrato baixo da serra e só não avançam no planalto em razão do frio que lá reina. Razão também porque não vão muito mais para o sul do continente. Ficam cá embaixo, espiando lá em cima o reino soberano da mata de araucária.

 

   Este pinheiro é a última árvore típica da floresta temperada e parte de uma grande família botanicamente mais antiga do que as espécies dominantes na mata tropical, haja visto que estas últimas têm flores completas, enquanto que aquelas têm somente as sementes nuas que comemos no inverno. Provavelmente em eras mais frias a mata de araucária dominou regiões muito maiores e estaria hoje em recuo natural ante o avanço das falanges tropicais. Fenômenos que só não se verificam mais claramente devido à ação da mão nem sempre muito sábia e paciente do Homem.

 

   Por tudo isso mesmo o Vale do Ser é um lugar privilegiado. Além da abundância de águas, e ainda que em muito modificado por ação antrópica, ele permite visualizar perfeitamente o encontro destas três grandes florestas. Mata esta que tem viabilizado uma fauna extremamente rica, com destaque para aves como a gralha e toda uma gama de mamífero, répteis, anfíbios e insetos que fazem a festa do observador mais atento. Reflexo desta integração de clima, solo, altitude e Homem, a paisagem do Vale do Ser, vem sendo pacientemente modelada.

 

Arno Kayser,

Poeta, engenheiro-agrônomo e ecologista

Julho de 1995