NÚCLEO TERAPÊUTICO

 

ARTIGOS - TEXTOS E AFINS

II - RELACIONAMENTOS

 

A RELAÇÃO COMO OPORTUNIDADE

DE TRANSFORMAÇÃO PESSOAL I

Sérgio Veleda

 

    Em O Simpósio, Platão diz que os seres humanos eram andróginos: possuíam uma parte homem e uma parte mulher. Cada pessoa tinha uma cabeça com dois rostos, quatro mãos, quatro pés e genitais masculinos e femininos. Dessa forma, possuíam uma enorme força e assim desafiaram os deuses. Não tolerando a insolência, Zeus, com a ajuda de Apolo, dividiu os seres humanos em dois, homem e mulher, diminuindo assim a sua força e deixando uma cicatriz invisível em cada um deles. 

  

   Conforme Platão, as duas partes passaram a buscar desesperadamente a parte complementar, para restaurar a completude, o preenchimento e a própria força. Começaram, desde então, essa busca fora de si mesmos, em algum lugar, na procura de alguém, do par perfeito, da pessoa certa, através de quem se sentiriam outra vez inteiras.

 

 

UMA IMAGEM DE AMOR VINDA DOS PAIS

 

    A busca de completude no amor é também um anseio de voltar no tempo, de resgatar um estado em que nos sentíamos completos. Esse estado muitas vezes existiu em algum ponto da nossa infância, ao lado de nossos pais ou de seus substitutos. Quando a criança é completamente servida, amparada, admirada e acalentada, há uma forte memória dessa condição paradisíaca de amor e de luminosidade em seu próprio ser. Quando isso não acontece, há marcas de desamparo, de abandono e de falta. O anseio de um dia vir a preencher o buraco dessas faltas vai tonalizar a busca do amor.

 

    A importância dos pais é determinante em nossa Infância. É a partir deles que construímos a nossa primeira imagem interna do amor e de quem vamos amar, baseada nessa experiência primitiva. A forma como se desenvolve o relacionamento da criança com a mãe e com o pai – ou substitutos - registra, nos porões de seu psiquismo, a familiaridade com determinadas experiências afetivas e eróticas, guardando a atração por certas pessoas, por determinados arquétipos.

 

    Os registros primários de afeto estão no cérebro límbico e essas impressões condicionam muitas de nossas escolhas afetivas ao longo da vida. Há muitas linhas e pesquisas na Psicologia que sugerem que casamos ou pelo menos buscamos parceiros semelhantes aos nossos pais. Buscamos pessoas com as quais vamos editar processos afetivos similares aos já vividos no passado.

 

     Enquanto nossa parte racional (o neocortex ) é capaz de distinguir uma coisa da outra, a parte do cérebro ligada aos afetos é mais reativa aos estímulos com os quais entra em contato. Por exemplo: diante de uma experiência, essa parte irá até seu arquivo de memórias para encontrar um registro semelhante, para saber como responder, sem fazer distinção de tempo e espaço, misturando o que esta lá com o que está aqui. 

 

   O espectro de possibilidades não será muito vasto, mas as ações aprendidas terão por base um cunho instintivo oriundo da própria natureza: ficar, lutar ou fugir. De outra forma podemos dizer: aproximação, confronto ou afastamento. A resposta dependerá das experiências de amor vividas no passado com nossos pais. E, muito especialmente, do vínculo com a mãe, ou substituta, nos primeiros meses de vida. 

 

   Os conflitos vividos entre carência e saciedade na infância vão originar um par de sentimentos opostos, no momento em que a criança não consegue mais manter seu estado de fusão e de plenitude junto aos seus cuidadores mais íntimos. Esses sentimentos são amor versus ódio.

 

   Voltando um pouco ao começo de tudo, quando estamos numa fase fusional, a necessidade que temos é de uma experiência de completude, saciedade e amor, o que vai gerar uma sensação de confiança básica, primordial. Ela se caracteriza por um estado de fusão com o objeto de amor. Uma vez rompido esse relacionamento com o outro, surge a divisão entre necessidade não satisfeita e raiva pela frustração. E no lugar da confiança se constrói a desconfiança básica.

 

    Quando perdemos o estado de completude, mudamos a resolução diante de nossa fonte de amor. Para lidar com a insegurança e a desconfiança sobre como obter amor, cada um chega a uma resolução estratégica. Essa resolução é marcante na infância e quando se chega a vida adulta, a tendência é que nos apresentemos ao outro de uma das seguintes formas.

 

1. Buscando aproximação do outro: nos tornamos condescendentes, bons, carentes, passivos, dependentes, servis, culpados e responsáveis com relação ao outro. 

2. Fazendo oposição ao outro: evitando a dominação do outro, mantemos um certo controle na relação. Desse modo, evitamos a sensação de sermos vulneráveis e dependentes. Seremos, então, mais agressivos, controladores e invasores da vida do companheiro. 

*  Essas duas resoluções equivalem a resolução inicial entre amor e ódio, ou seja: aproximação ou oposição.

3. O distanciamento é a terceira saída, que se caracteriza por não ser nem uma resolução pelo amor e nem pela raiva, como as anteriores. O afastamento é uma transposição, de forma a não estar em conflito com a dependência ou com a dominação. O distanciamento vai se caracterizar por não envolvimento, individualismo, não comprometimento, distância afetiva e uma relação mais mental e racional com o outro.

 

            

PERDENDO A NOSSA NATUREZA E O NOSSO AMOR

 

    Desde que perdemos a nossa completude, temos uma ferida existencial em nossa capacidade de amar. A perda da completude atinge profundamente a confiança na vida e em nós mesmos. Equivale a uma perda essencial, quando desaparece uma parte importante de nós mesmos. Na verdade, perdemos a nós mesmos.

 

    Diante disto, sentimos desconforto e grande instabilidade. Então, passamos a expor aspectos sombrios e negativos de nós mesmos. Como não desejamos e nem suportamos ficar com esses aspectos, os negamos em nossa própria auto-imagem. Esses aspectos são todas as nossas deficiências enquanto sombra (parte não assumida da personalidade). É a nossa negatividade. Então passamos a forjar uma parte artificial e estudada em nosso comportamento – e que pensamos ser capaz de esconder a sombra  - para assim, então, nos sentirmos aceitos. Essa parte artificial é a máscara ou o faz de conta de cada um.

 

   Ao buscar um relacionamento amoroso, almejamos o preenchimento do que foi perdido. Para tanto, começamos a esconder as nossas precariedades, para assim salientarmos o que o outro espera e necessita. Desta forma talvez o outro nos ame. Fantasiamos que o outro vai restituir a nossa parte perdida; ou, ainda, desejamos viver sob a sombra do que ele possui e nós não temos. 

 

    Ao mesmo tempo, também, projetamos sobre o outro os aspectos sombra que negamos em nós mesmos. Dessa forma, dentro da relação, cultivamos a falta, a carência, a frustração e a raiva. Reviveremos a sensação de não termos uma boa condição, ao não sermos satisfeitos e apoiados pelo outro. Ficaremos com raiva e agrediremos de muitas formas. Por fim, viveremos outra vez a falta de amor como consequência de termos agredido o amor do outro. A dinâmica de amor e culpa é a causa da miséria, da falta e do ódio nas relações.

 

 

 

A NATUREZA DO AMOR ROMÂNTICO

 

   Quando somos atraídos por alguém, uma força muito grande nos impele sem que a nossa racionalidade consiga interferir. A paixão é um anseio na direção de algo, sem medidas. Não somos movidos apenas por um desejo, mas pelo ser inteiro.

 

   Esse momento equivale ao desejo de que o outro é e tem aquilo que espero e necessito. Todos os meus anseios e ideais de amor estarão presentes nesse momento. Muitas pessoas abandonam tudo num momento de paixão porque o resto lhes parecerá supérfluo em relação à satisfação e à completude da paixão. Não é necessário mais nada, nem ocupação, nem álcool, nem roupas, nem mesmo comida, pessoas e outras distrações.

 

    Nesse ponto, algumas pessoas chegam a ter experiências cume. Chegam a sentir que tudo se transforma em uma unidade, que tudo está tomado de claridade e doçura, onde coexistem harmonizadas a força e a ternura. Muitos pensam ter encontrado quem os protegerá e lhes restituirá o estado de completude e totalidade. 

 

   Nesse ponto do processo é possível que estejamos vendo apenas a nós mesmos (com o que necessitamos e desejamos do outro) e não enxergamos o parceiro em si, como ele é. De fato, já o revestimos com as nossas exigências e expectativas.

 

   Segundo Harville Hendrix, existem quatro expressões habituais entre os casais nessa fase da relação. Elas revelam os jogos inconscientes e projetivos do amor. Vamos citá-los aqui:

 

• EU SEI QUE ACABAMOS DE NOS CONHECER, MAS, DE ALGUMA FORMA, SINTO COMO SE JÁ LHE CONHECESSE HÁ MUITO TEMPO. Segundo Harville, devido a uma condição inexplicável, os amantes se sentem tão rapidamente íntimos que não há precedentes em outras situações. Ele chama isso de fenômeno de reconhecimento. Encontramos aí algo muito peculiar, conhecido e íntimo. É o cérebro límbico que manda a informação de que novamente encontramos nossos pais, ou aquele que vai nos apoiar, nos aceitar. Os anseios infantis mais profundos estão presentes, bem como todas as feridas que buscam ser saradas.

 

• ISSO É ENGRAÇADO, MAS MESMO QUE TENHAMOS NOS CONHECIDO HÁ TÃO POUCO TEMPO, NÃO CONSIGO ME LEMBRAR COMO ERA A VIDA ANTES DE CONHECÊ-LO. Esse é o ponto em que os amantes têm a sensação inicial de que sempre estiveram juntos. É o fenômeno de atemporalidade. Aqui novamente a mistura entre familiaridade e segurança, associados aos pais gravados interiormente, confundem-se com aquele que escolhemos como nosso amor.

 

• QUANTO ESTOU COM VOCÊ, NÃO ME SINTO SÓ; SINTO-ME INTEIRO, COMPLETO.  A maioria das pessoas revela a sensação de que ainda não tinham achado o que buscavam. Quando encontram a pessoa amada, a sensação é de ter acabado o suplício. O sentimento é de ter chegado ao fim de uma viagem. A sensação de estar completo é inspirador, assim como a fantasia de ter encontrado quem lhes restituirá a parte perdida. As pessoas com perfil marcado pela indeterminação, costumam buscar alguém com determinação; as que se sentem reprimidas emocionalmente buscam alguém extrovertido emocionalmente; quem é muito ansioso e agitado busca alguém mais passivo e calmo; quem se sente incapaz busca alguém mais capacitado. Esse fenômeno pode ser chamado de reunificação .

 

• EU LHE AMO TANTO, QUE NÃO POSSO VIVER SEM VOCÊ. A sensação de não se conseguir viver mais sem o outro é o cume de uma paixão avassaladora, que deposita sobre o outro a sustentação de sua vida. Ela é representação legítima do fenômeno de necessidade que opera inconscientemente nas relações de amor. Nesse ponto, transfere-se a responsabilidade de sobrevivência ao companheiro, tal como no passado nossos pais ocuparam a mesma função. Nessa expressão estão todos os medos, preferencialmente os de abandono, rejeição e morte.

 

 

QUANDO VOCÊ NÃO É MAIS QUEM EU PENSAVA QUE ERA

 

   O período romântico termina no momento em que o outro abandona o papel de faz de conta e mostra sua verdadeira cara. É quando nem um dos dois quer apenas estar na função de restituir a perda da natureza íntima do companheiro; e, nem mesmo de estar suprindo a falta insaciável do parceiro. Então, acaba a fase do romantismo.

 

   Nesse momento, queremos deixar o papel de fazer e de dar. Queremos agora apenas receber, desejando sermos atendidos nas necessidades mais conflitantes e deficientes de caráter. Quando o outro não está mais disposto a ocupar esse papel de restituir as faltas em nossa vida, surge uma expressão bem comum: NÃO ÉS MAIS QUEM EU TINHA CONHECIDO.

 

    Inicialmente o faz de conta é parte do personagem que usamos para atrair o outro, mostrando-nos mais saudáveis do que realmente somos. No primeiro período de um relacionamento, fazemos muito mais do que costumamos fazer, para então nos mostrarmos o melhor possível. É o que se chama de identificação projetiva. identificar-se com as necessidades do outro para ser atraente, bom, compreensivo.

 

   Quando começamos uma relação idealizando (é isso o que geralmente acontece), costumamos negar o que nos trará sofrimento ou desconforto. Vemos coisas no outro que poderiam nos ser prejudiciais, mas tentamos ignorá-las, fechando os olhos para as mesmas. Também negamos uma série dos nossos defeitos, pois não desejamos que o outro os conheça, salientando mais os aspectos belos e saudáveis. A negação é uma parte marcante do comportamento dentro das relações de amor.

 

   A decepção traz consigo a raiva, a defesa, a paranoia e a sensação de traição. Exatamente quando o outro mostra como é, e isso é diferente do que queremos, acreditamos ser irreal a contraposição de nosso desejo anterior pelo parceiro. Nesse ponto, sentimentos feridos do passado, vividos ao lado de nossos pais, somam-se à experiência de decepção no presente. Transferimos para nosso parceiro esses sentimentos, fenômeno chamado de transferência ou a reedição do passado no presente.

O declínio do amor romântico faz levantar entre os casais a sombra dos sentimentos negativos da infância, bem como os sentimentos deficientes decorrentes desse período de formação do caráter. Esse instante dentro da relação é doloroso. Nele vivenciamos a falta de esperança que um dia sentimos ao lado de nossos pais.

 

 

TRANSFERÊNCIA, PROJEÇÃO, NEGAÇÃO

 

      As brigas entre casais têm por base a transferência, a projeção e a negação. Elas somam-se à inconsciência com que os casais vivem seus sentimentos.

 

 

TRANSFERÊNCIA NEGATIVA E POSITIVA

 

      Fazer transferência é transferir os sentimentos que tempos em relação a alguém sobre outra pessoa. É transferir do passado para o presente, ou, como estamos observando aqui, de nossos pais para o nosso companheiro. Na transferência, a cena simbólica, inconsciente, é uma cena onde estamos diante de nossos pais. Nosso companheiro passa a ser o depositário de sentimentos de raiva, aqueles que sentimos em relação aos nossos pais; de medo de abandono, de medo de dominação, de privação ou de insegurança que herdamos de nossa relação com eles. Quando surgem sentimentos conflitantes com nosso companheiro e há um antecedente similar vivido em relação ao pai ou a mãe, trata-se de uma transferência negativa.

 

   A transferência positiva poderá se revelar quando acreditamos que o companheiro está aqui para nos cuidar, nos proteger e nos atender. Idealizamos o parceiro e colocamos sobre seus ombros uma tarefa que talvez ele próprio não conseguirá – ou não queira atender. No instante em que ele não atender a essa expectativa, a transferência positiva se transformará em negativa. Esse é o fim do período  romântico, que dá início ao período de luta pelo poder e controle da relação.

 

       

• PROJEÇÃO 

 

Projetar é colocar fora – sobre o outro - o que ocultamos de nós mesmos. É mais fácil ver a dificuldade no outro do que em si mesmo. Nesses casos, tomamos o que é tabu, é repugnante e inaceitável em nossa pessoa (nossas partes renegadas e deficientes) e projetamos sobre o outro. Quando brigamos demais com algum aspecto de nosso companheiro, devemos ser sinceros e ver o que temos disso e porque renegamos isso para nós mesmos. Muitas das brigas de casais se sustentam em projeções, que se tornam acusações acirradas e até violentas. A negação dos traços dos quais somos acusados por nossos pais ou  irmãos continua vigorando agora na relação de amor. Negamos esses traços e passamos a projetar. Aquilo que fere a nossa auto-imagem é, muitas vezes, projetado sobre o companheiro.

 

• NEGAÇÃO

Negar faz parte da projeção e é, também, um mecanismo de defesa. Sua função existe para proteger a identidade, o ego, o caráter contra os ataques do parceiro. A negação faz parte também dos mecanismos de controle e de poder dentro da relação, salvaguardando o medo da dependência e do controle do outro. É um meio de se negar o íntimo e a entrega, por exemplo.

 

 

PODER E CONTROLE

 

   Com o passar do tempo, a relação inconsciente chega a uma fase doente e desesperadora. Nela são travadas árduas lutas. marcadas por controle e poder, por disputa e competição, por inveja e invalidação. Assim como uma criança que tenta controlar e demarcar o território dentro de sua casa, nesse momento não vemos mais o parceiro. Queremos apenas escapar de seu abandono e de sua rejeição.

 

   O mesmo conflito estava lá na infância, na disputa com os outros irmãos pelo amor da mãe, na disputa com o pai pela atenção da mãe, nas manipulações, no controle e no domínio através do sofrimento, da mentira e da força.

 

   Existem muitas táticas de poder e de controle, mas o desespero mostra que, muitas vezes, os meios usados para que o parceiro seja mais amoroso acabam por machucá-lo. Por exemplo, a negação dos afetos, quando nos colocamos estrategicamente distantes; ou, quando fazemos um movimento ambíguo de aproximação e de afastamento, dando e depois tirando. Também estão neste patamar os comportamentos de irritação, de impaciência e de intolerância, o culpar e o atacar; a chantagem; o dramatizar; o sofrer; o ameaçar (até mesmo físicamente) e, efetivamente, o agredir. Na maioria das vezes, essas condutas têm o propósito de que o outro se torne mais carinhoso, compreensivo e amoroso.

 

   Quem está de fora, efetivamente não entende. Soa confuso e absurdo. Como machucar alguém em algum nível pode fazer com que a pessoa mude sua conduta e seu comportamento afetivo? A lógica é infantil e neurotizada. 

 

 

 

ATRAVESSANDO A CORTINA DE FOGO

 

Sócrates disse que o amor é incompletude, falta, carência, existindo dois caminhos pelo quais ele pode nos levar: a infelicidade ou a espiritualidade.

Geralmente buscamos o amor pela falta, pelo que não temos. Partimos ao encontro deste que é a outra parte, que preencherá o espaço, o vazio, a lacuna de nosso interior. Como sugeriu Platão, estamos em busca da unidade, junto de outro corpo, fundindo-nos com a fonte de nosso amor. Mas, vemos que esse amor não é possível, porque o outro que buscamos também é uma lacuna, uma falta, um vazio. Se unirmos a nossa falta com a falta do outro, teremos duas faltas, dois vazios. Geralmente, esse é o inferno dos casamentos e das relações.

O amor não costuma ser um estado de saciedade e completude. Ele é busca e, geralmente, a busca por algo que nunca encontramos. A falta sempre está ali, em alguma coisa, em algum detalhe, em algum defeito do outro. Eros, o deus belo, vivo, doce, delicado, jovem e corajoso, paradoxalmente, é filho de Pênia, que significa miséria, pobreza.

O caminho de uma relação em crescimento começa quando o casal chega à exaustão de todas as cobranças e queixas. Ela inicia quando deixamos de tratar do outro para tratar de nossa velha ferida. A relação de crescimento começa quando retiramos nossa expectativa e nossa projeção sobre o outro; quando aceitamos suas diferenças e nos tornamos compassivos com seu próprio sofrimento e suas deficiências.

Para chegarmos ao começo de um processo de crescimento dentro de uma relação, necessitamos passar pelo choque e pelo desmoronar da expectativa de que o outro é o futuro de nossa felicidade. Quase sempre esse choque não nos chega de forma consciente. Quando ele chega, o experimentamos como decepção, como se alguém tivesse nos mentido ou nos enganado. Por isso, não queremos acreditar na decepção, no fato de que o outro não é o que esperávamos que fosse.

A sensação de sermos traídos por tal decepção, pelo fato do outro não corresponder às nossas projeções e expectativas, traz junto a raiva e o inferno das brigas e dos desgastes emocionais. Então, a tentativa mais costumeira é a negociação.  Se o outro não fizer mais aquilo que me desagrada, então serei mais amoroso, estarei mais disponível, etc. 

A negociação prolonga a relação, embora não possa sustentá-la, porque tem algo oculto de ameaçador e inculpador. Uma vez não cumprido o acordo, o inferno volta recheado de culpas e acusações. Então vem o caos e ambos perdem todas as esperanças. Sentem que não sabem mais o que fazer. Encontram-se fragilizados diante de algo que parece ser maior que os dois juntos. No pico do desespero alguém pede separação e vai embora. Os que permanecem juntos, muitas vezes desenvolvem relações fora do casamento. Apenas uma parcela pequena de casais encontra caminhos para resolver seus problemas e seguem processos satisfatórios.

Há um fato marcante que impede os casais de crescerem em uma relação a dois: não aceitar que o outro mude. Parece que o outro deve permanecer o mesmo, por toda a vida, para assim estarmos seguros. Sempre que um muda sua visão e os caminhos dentro de sua própria vida, isso pode soar como uma ameaça ao companheiro.

O caminho que possibilita o processo de crescimento passa pela aceitação da mudança e da diferença do outro. Essa tarefa de valorização da peculiaridade do parceiro, a diferença que soma, é uma das pedras angulares na relação que passou por todos os caminhos tortuosos e, agora,  investe em seu próprio crescimento. Uma relação tem mais campo de expansão quando não têm dois iguais, mas dois diferentes e complementares, em liberdade.

Outro ponto importante é expormos, dignamente, a nossa dor ou carência ao outro. Essa ferida que foi sempre a causa de nossas reações brutais com o companheiro, é também o motivo pelo qual sempre o culpamos. Essa ferida precisa ser cuidada com nossas próprias mãos e não evitada, rejeitada. Essa ferida pessoal é também a causa de nossa pouca sensibilidade com o outro e da preocupação exagerada consigo mesmo. O medo da dor dessa ferida, que é carregada de traumas do passado, tem o tônus do ressentimento com nossos pais e faz com que algumas pessoas adotem uma relação de controle ou de vitimação dentro de seus relacionamentos.

Cuidar da própria ferida e dissecar o temor e o medo de ser abandonado é como cruzar uma cortina de fogo. É uma cortina sensível, que toca as raízes delicadas de nosso coração. Ao passarmos por ela, alguma coisa relaxa no fundo de nós mesmos. Então, o medo se converte em sensibilidade; e, a sensibilidade em amor por si, em cuidado, estima e bondade essencial. Essa base faz com que não nos relacionemos apenas pela falta, mas pelo que encontramos dentro de nós. Nesse ponto, o amor do outro é mais do que completude. Ele é suficiente em si mesmo. Às vezes, chega a ser um transbordamento.