NÚCLEO TERAPÊUTICO

 

ARTIGOS - TEXTOS E AFINS

I - SEXUALIDADE

 

 

A SEGUNDA ETAPA DA REVOLUÇÃO SEXUAL

Evania Reichert

 

 

   A Revolução Sexual - marco cultural dos anos 60 - alterou abruptamente os paradigmas sociais no que se refere a sexo e moralidade. Depois dessa época, a sexualidade passou a ser um tema sempre presente e considerado fundamental nos debates sobre relacionamentos. 

 

    Na época, tratava-se de uma liberação diante da proibição que se mantinha década após década.  Acompanhada pelo movimento feminista, a dita revolução alcançou, em maior ou menor escala, todas as faixas sociais. E mexeu nas entranhas da ideologia do modelo social dominador, onde um grupo domina o outro e o homem para ser homem deve ser o chefe da mulher e da família.

 

     É certo que, desde então, os paradigmas sobre tipos de família e funções do homem e da mulher dentro de casa se alteraram significativamente. Até então, o sexo era socialmente aceito somente se dentro do casamento. Na época, mulheres que sentissem desejo ou que revelassem prazer sexual eram vulgarizadas, quando não banidas da família. Os homens, por sua vez, deveriam provar sua masculinidade em bordéis e assemelhados. Prazer sem culpa nunca esteve na pauta de assuntos relevantes dentro de uma sociedade historicamente autoritária e patriarcalista. 

 

      O impacto do "amor livre", que chegou ganhando adeptos até mesmo nas regiões interioranas, desconfigurou rapidamente esse quadro. Uma nova forma de lidar com o amor e o sexo desestabilizava os ideais dominadores. Sem dúvida, esta foi a postura de maior confronto cultural que as gerações dos anos 60 e 70 tiveram e, felizmente, conseguiram sustentar. Um rebuliço moral que teve o mérito de resgatar o livre arbítrio sobre o corpo, fortalecer os ideais feministas e derrubar a ideia de que o sexo é sujo e pecaminoso. Essa foi a primeira etapa da Revolução Sexual. 

 

      Apesar do avanço obtido nas décadas 60 e 70, sustentado pela rebeldia da geração hippie e simpatizantes, a mudança não foi suficiente para reduzir as disfunções sexuais, os conflitos amorosos e emocionais das pessoas. Ocorreu a liberação do corpo, o livre-arbítrio sobre o corpo, mas não a liberação sexual efetiva. Até porque esta questão é mais complexa. 

 

       A nossa sexualidade é a expressão cristalina do funcionamento do nosso caráter, que recebe forte carga de repressão originária do programa social e familiar, geralmente alimentados por ideologias dominadoras e autoritárias. Como vimos na aula anterior, sobre a programação corporal, a expressão sexual é o próprio caráter se manifestando.

 

     Sem dúvida, os anos 60 e 70 trouxeram liberação em muitos sentidos. Hoje, apesar da AIDS, o nosso problema não é mais o acesso ao sexo. Qualquer adolescente tem direito de "ficar" sem nenhum "chá de pera" ou segurador de vela por perto. No entanto, a problemática sexual e afetiva é pelo menos tão complexa – e talvez até mais difícil _  do que nos anos hippies.     

  

        Resgatamos o corpo, mas não conseguimos a liberação sexual e muito menos a amorosa. Nesse caminho é que a segunda etapa revolução sexual se insinua. É evidente que a revolução sexual, proposta por Reich nos anos 30/40 e idealizada pela geração hippie, não se consolidou. Basta olhar o modo como se dão os relacionamentos adolescentes hoje. Em relação aos anos 60 e 70, há mais preconceito, repressão na manifestação dos afetos, jogos, desafetos, machismo e feminismo, além da pornografia, do que naquela época. 

 

        Talvez seja o efeito da contra-revolução sexual, que historicamente sempre pretende nos arrastar de volta ao passado e ao estado anterior. O incremento da violência e sua forte conexão com a sexualidade, a alta carga de mensagens de dominação veiculada nos meios de comunicação e o enfoque mecânico e inconsciente da prática sexual, agravada pela vulgarização massiva, fazem parte do nosso retrocesso. 

 

       No entanto, paralelamente, há algo que evolui por baixo destas ondas de avanço e retrocesso. É a segunda etapa do processo da revolução sexual, que não trata mais apenas do corpo em si, mas da sexualidade humana como expressão da alma, como manifestação do autoconhecimento, do crescimento pessoal sobre a prisão gerada pelo programa familiar e social. 

 

DOMINAÇÃO x COOPERAÇÃO

 

    Se olharmos o transcurso da nossa evolução cultural, sempre existiram dois elementos básicos de atração, que sustentaram as estruturas sociais: o prazer e a dor. As sociedades que estimulam seus cidadãos através do prazer tendem a ser menos hierárquicas e mais orientadas à participação, à colaboração, à igualdade. Já nas sociedades orientadas pela dor é instaurado um modelo dominador rigidamente hierárquico, colocando um grupo como subordinado a outro e assim sucessivamente. 

 

    Desde as origens do patriarcado, a mulher constitui um típico grupo subordinado. A mulher, a mãe, a terra: as três são a estrutura de exploração que o modelo dominador estende a todos os demais. Para muitos homens, a dominação é parte integral da sua identidade, da sua masculinidade. O mesmo princípio se aplica ao domínio e destruição da natureza. 

 

     A ideologia do modelo dominador é tão marcante que ainda hoje os homens são condicionados a pensar o sexo em termos de domínio e controle - e até mesmo de violência - e não como um ato de união e afeto. Ao mesmo tempo, muitas mulheres ainda erotizam o submetimento ao homem e aceitam a subordinação e a dominação como algo normal.

 

    É certo que ocorreram muitos avanços em termos de traços mais participativos e igualitários nas relações homem-mulher, pais e filhos. Também se avançou, em alguns lugares do mundo, na derrubada de alguns padrões dominadores que marcaram os últimos 300 anos de história. Exemplos: escravização de uma raça por outra, a ideia de que os reis têm direito de governar por mandato divino e de que os homens têm direito de governar sua mulher e seus filhos, também por inspiração divina. Muitos desses conceitos e realidades sociais caíram.

 

    Mas, dentro de casa, no cerne das relações fundamentais de casais e entre pais e filhos, os ideais autoritários seguem presentes em formas opressoras e violentas, às vezes manifestadas somente na intimidade. A família é atualmente o espaço de convívio onde a violência direta e indireta está autorizada e institucionalizada de forma mais sistemática.

 

   É comum para muitas pessoas o ato de falar com seus parceiros e filhos de um modo que não ousariam tratar amigos e conhecidos. Os modos grosseiros e desrespeitosos costumam ser mais autorizados em casa do que nas relações sociais. Na sexualidade, o quadro não se mostrará muito diferente.

 

REVISÃO E REEDUCAÇÃO

 

   A crise das relações humanas está exigindo de quem deseja maior qualidade na vida amorosa e sexual um pouco de trabalho pessoal e de aprofundamento, abrindo-se para uma investigação pessoal e comprometendo-se com o desejo de crescimento. Nesse momento histórico não há qualquer movimento libertador das amarras sexuais, a exemplo do que ocorreu nos anos 60, que possa impulsionar mudanças culturais e comportamentais mais profundas. 

 

     As novas gerações apontam algo da androgenia em seus contatos sexuais, mas ainda seguem com condutas dominadoras e autoritárias em seus modos de interrelação. Portanto, ainda não revelam algo realmente liberador. A liberdade fica limitada ao livre arbítrio sobre o corpo, nada mais.

 

    Há, entretanto,  um movimento que cresce a partir das pessoas voltadas aos processos de crescimento pessoal, jovens e adultos, que focalizam a relacãõ direta entre sexo e caráter, construindo um sexualidade consciente e muita mais prazerosa. Isso parece ser um indicio de avanco, talvez o alinhavo da segunda etapa da revolução sexual. 

 

   Trata-se de algo mais consistente, uma tarefa mais profunda, mais difícil e mais comprometida do que apenas fazer amor com quem nos inspira desejo. Trata-se de trazer consciência a essa área dos instintos, exatamente para ampliar o potencial de prazer e transformação, saindo do sexo mecânico e limitado para experimentar algo da sexualidade consciente. 

 

       Ensinamentos antigos vindos do Taosimo e do Tantrismo, onde a sexualidade é sagrada, inspiram caminhos para a construção de novas formas de viver a sexualidade, uma sexualidade menos mecânica e com maior potencial de prazer, saúde e auto-realização.

 

    O curioso é que nesse momento o caminho da sexualidade consciente está aberto a qualquer pessoa interessada. Entretanto, não é acessível a quem não tem certo conhecimento de si mesmo, pois os pré-requisitos para desenvolvê-la são: contato com a própria interioridade,  trabalho sobre si mesmo, consciência de suas próprias perturbações emocionais e corporais, trabalho de meditação e abertura para um processo de reeducação e transformação sexual. 

 

   Os danos da programação sexual social e familiar comprometeram fortemente nossa capacidade de amor e entrega. E é desta forma que a maioria das pessoas vivencia sua sexualidade: de modo performático, medroso, mecânico e inconsciente. A forma como vivenciamos o sexo nada mais é do que a expressão nítida do funcionamento compulsivo do nosso próprio caráter, com suas deficiências e perturbações. 

 

   Portanto, um processo de autoconhecimento que não revisa a relação entre sexualidade e amorosidade não está atuando no polo central do caráter. Porque é exatamente na sexualidade que as lições são mais difíceis e onde o poder do programa moral da sociedade alcança - ainda hoje - suas maiores vitórias.